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Com um cardápio aberto a minha frente, estou mais uma vez indeciso entre tantas opções de cafés, doces e salgados, ou melhor, delicatéssen como anunciam alguns lugares. Demoro a me decidir, pois facilmente me distraio o com o barulho do vaporizador, ou com o tilintar das xícaras ou o cheiro de um espresso recém servido.

A verdade é que sou um assíduo frequentador de cafeteria.  Com seus espaços intimistas, mesmo que você esteja acompanhado, ou com seus ambientes acolhedores, mesmo nos dias mais quentes, passam-se horas sem que eu tenha percebido.

A garçonete interrompe meu devaneio, perguntando se já escolhi o pedido. Depois de alguns instantes, peço “um cappuccino e pães de queijo, por favor.” Simples e previsível, eu sei. Mas essa é a resposta padrão, quando não sei ao certo o que pedir.

Enquanto meu pedido está sendo preparado, volto à leitura (maçante) dos “Termos e condições de uso” de um novo produto desenvolvido pela empresa para a qual presto serviço. Sim, eu leio (e até mesmo escrevo) Políticas de Privacidade e os tais Termos. Não me julgue, pois o meu trabalho é garantir que, ao instalar um aplicativo, você não esteja concordando em passar a guarda de seus filhos para uma empresa chinesa. Nem autorizando a retirada de um de seus pulmões.

E na cafeteria vivencio o que costumo chamar de choque temporal: o tempo não passa quando estou lendo as políticas e termos, ao passo que o tempo voa enquanto estou numa cafeteria. Assim, sempre que posso, venho trabalhar aqui. São horas e mais horas escrevendo e revisando textos que não serão lidos por ninguém. Para alguns é um dos piores, ou pelo menos, o mais frustrante dos trabalhos. Para mim, são honorários para fazer o que já fazia de graça. Dado que sou o tipo de pessoa que lê bulas, rótulos de xampu (e não só quando esqueço de levar o celular para o banheiro), como manuais do usuário, etc.

Sou, de fato, um sujeito peculiar. Não faço check in nos lugares mais clicados (até porque não os frequento). Faço maratona de séries que poucos assistem. Tenho hábitos não tão comuns e vivencio situações inusitadas. Minha vida é o que se chamaria de casos omissos.  Lá nas Disposições gerais são apreciados os casos omissos, aqueles que não costumam acontecer ou que ninguém ouvira falar antes. Caso minha vida tivesse um contrato, o capítulo mais extenso dos meus Termos e condições, seria esse.

Nos casos omissos, se discutiria o que pensar de um adorador de cafeteria que não gosta de café. Embora fique extasiado com o aroma, fico nauseado ao beber um pingado. Já tentei, por educação, aceitar um “acabei de passar”, mas a expressão que fiz ofendeu mais do que uma simples recusa. Agradeço ao ser abençoado que resolveu adicionar leite nessa história. Essa mistura, que rende belas decorações, suaviza e até mesmo realça o sabor de um arábica.

Em casos omis…. “seu pedido, senhor”. Mais uma vez a garçonete me traz de volta, me ajuda lembrar que, para as disposições gerais, primeiro tenho que terminar o “da contratada”.

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